Qual a minha Cor?

Deroní Mendes - Na última sexta feira, passei no PSF para tomar vacina contra Febre Amarela. Então,  comprimento a atendente, e entrego meu cartão do SUS. Simpaticamente, ela  responde ao cumprimento, insere o número do cartão no sistema e:
- minha linda, aqui tá pedindo sua cor. Você precisa me dizer qual a sua cor...
- Preta.
Ela me olha. Torce os lábios para direita, depois pra esquerda, me olha com a cabeça baixa, levantando apenas uma das sobrancelhas. Suspira, e depois sorri visivelmente desconcertada...
Eu sorrio de volta, meio que querendo conforta-lá, tranquilizá-la, acalmá-la...sei lá. Preguiça. Ser reativa pra quê? Logo de manhã. Logo hoje um dia depois da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3239, ajuizada pelo partido Democratas (DEM) contra o Decreto 4.887/2003, que regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos ir por água abaixo pelo STF por uma placar de lavar a nossa alma (10 X 1). Eu tô tão bem. Tão feliz. Tão esperançosa. Tão acreditando nas pessoas, no amor ao próximo, na empatia...E por falar em empatia. Cadê, ela? Empatia, cadê você? Help-me, please!? 
-Eu sei. A senhora não Concorda, né? Mas tá tudo bem. É assim que eu me sinto. É a cor com a qual me identifico e me auto-defino.
Ela sorri de volta. Aliviada ou talvez surpresa e me entrega o cartão do SUS.
- Então tá...prontinho, minha Flor, é só esperar naquela porta que a moça da vacina já já te chama.

A reação da atendente, me fez voltar a afirmação do antropólogo Darcy Ribeiro  que por sinal, infelizmente, ainda continua atualíssima, segundo ele:  "(...) a característica distintiva do racismo brasileiro é que ele não incide sobre a origem racial as pessoas, mas sobre a açor de sua pele. Nessa escala, negro é o negro retinto, o mulato já é o pardo e com tal meio branco, e se a pele é um pouco mais clara, já passa a incorporar a comunidade branca."

Em todo caso, acredito, que  confronto e conflito, não resultam necessariamente do que falamos, mas em grande parte é resultado do como falamos e reagimos. Existem muitas formas de lutar contra o racismo e qualquer outra forma de preconceito, e  cada vez mais acredito que uma das mais eficazes, é por meio da empatia. Pois, o que queremos é desconstruir preconceitos e paradigmas, construir pontes entre os diferentes  e não construir muros e aumentar a intolerância.

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