Quem dera eu ter essa cor

Deroní Mendes - Um dia alguém disse-me: Que adorava a minha cor. Que a cor da pele negra é linda. E que ele não queria ser branco. Pois: precisa estar sempre tomando sol para pegar uma corzinha e para sair para qualquer lugar no calorão de Cuiabá, precisa se “untar” de protetor solar. E que feliz sou eu que não tenho esse problema.

Eu ouvi. Sorri e disse: “bom...não sei como é. Olha a cor da minha pele?  Ouvindo você falar parece que não é  muito fácil, mesmo”. Mas, você queria essa corzinha minha para que? Você queria essa cor pra fazer o que?  Só para poder sair no sol e não precisar usar bronzeador?

Ele disse que precisamente não saberia me detalhar. Mas, certamente, faria “muita coisa”.
Sorri novamente e disse que com certeza ele faria muita coisa, mas que num mundo racista em que vivemos, essa cor lhe traria possivelmente mais ônus do que bônus em todos os sentidos, econômico, social, político e religioso.

Depois de um certo silencio meio constrangedor. Sorrimos . Com um “soquinho” no ombro falei: “Ei. Foi mal. Só queria te dizer que não é tão ruim não ser negro. Não se chateie (...)”

E ele:“Poxa, muito idiota que eu sou, né? Não vejo anda além do meu umbigo. Afff. Deu até vergonha agora. Como posso não me importar com os outros. Vergonha alheia, hein?”

Eu poderia ter lhe dito muita coisa sobre o quão injusto, cruel e perigoso é ser negro/a numa sociedade racista e até dizer-lhe que, nós negros continuamos sem o grupo étnico mais pobre graças aos seus antepassados escravocratas, e que mesmo ele não tendo culpa, ou não sendo responsável pela crueldade que eles cometeram no passado. No presente, e no futuro, ele continua sendo beneficiado e em contrapartida, nós negros continuamos sendo excluídos prejudicado. Ainda bem que não o fiz.

Provavelmente, nos desentenderíamos. Trocaríamos algumas ou várias ofensas. Nossa recém amizade sairia estremecida ou chegaria ao fim, talvez. Nem sempre é o que falamos e fazemos que faz a diferença. O resultado positivo o negativo dependem bem mais de como falamos e fazemos.

Combater o racismo em dias atuais requer muita empatia. É claro que há casos em que é impossível se colocar no lugar do outro e tentar ver o mundo da forma como ele vê. No entanto, que tal considerar ajuda-lo a ver o mundo sob nossa perspectiva?  Ajudá-la e ver e entender a realidade em que vivemos?

O Racismo é uma herança histórica cultural que infelizmente continua sendo transmitida de pais para filho, as vezes de forma muito sutil. Muitos não se do racismo impregnado em seu comportamento. As vezes, suspeitam, mas abominam a possibilidade de ter a confirmação. E tentam fugir, ou a qualquer custo provar o contrário. E por vezes  acabam igualmente racistas como seus antepassados. Mas quando percebem, refletem, reconhecem, podem mudar a rota de sua trajetória (ou não).

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