Por mais bonecas com cabelos e pele iguais ao dela

Deroní Mendes – Tenho uma filha de 04 anos, a Sofia e sempre sonhei poder dar a ela os brinquedos que nunca pude ter. A minha infância não foi fácil. Sou de família rural de origem pobre, então, tínhamos muitos deveres desde muito cedo: Levar comida na roça para meu pai, tios e irmãos, lavar a louça; ajudar a buscar lenha; juntar casca do coco de babaçu; alimentar porcos e galinha, cuidar da irmã mais nova.  E só depois: brincar.

Praticamente, não tivemos brinquedos industrializados. No entanto, tínhamos um mundo para explorar: Brincar de casinha, pega-pega, queimada, bandeirinha, pescar na lagoa, subir em arvores. Era tudo uma festa. 

Quando fui prá cidade, aos 11 anos, logo comecei a trabalhar de babá. Ainda era muito jovem, uma criança cuidando de outras crianças. Queria brincar de boneca. Queria ter bonecas e brincar como outras crianças na minha idade. Inconformada, prometi que minha filha ou filho teria muitos brinquedos. Brinquedos e tempo para brincar mais. 

No entanto, o mundo, a vida adulta me mostrou que que não há problema em não ter os brinquedos que se deseja. Quando a Sofia nasceu, aprendi outros valores e encontrei outros desafios. E entre os desafio, o de ser mãe negra. Não é simples, e fácil ser mãe de uma menina negra em uma sociedade machista e machista. Logo descobri e entendi, quão necessário e imprescindível seria empoderá-la.  Cotidianamente, com gestos e palavras tento lhe mostrar que não há nada de errado com a cor da sua pelo, e o jeito do seu cabelo. Que ela é tão linda e especial quanto outras crianças de pele clara e cabelos lisos.

Muito mais que ter os brinquedos que eu não tive, quero que ela seja feliz, e tenha capacidade de lidar com esse mundo que as vezes se mostra perverso para nós negros. Para ela, menina negra. Para nós, mulheres negras. Um mundo que infelizmente, é muito cruel desde muito cedo com quem tem a pele preta ou parda e cabelos crespos.

Algumas pessoas, infelizmente ainda não entendem a minha frustração e indignação quando posto em meu perfil no Facebook, mensagens sobre racismo, contra o racismo. Não entendem, quão frustrante e cruel e triste, ver você não se identificando com as bonecas nas lojas de brinquedos. Querendo quando o seu cabelo ficará na cor, forma e tamanho do cabelo das bonecas barbies.  Ou Quando poderia fazer o penteado da Frozen, ou ainda, dizendo que sua princesa favorita era a Cinderela, porque o cabelo dela é lindo, amarelo.

Muitos não sabem. Outros não entendem. Outros preferem ficar indiferentes. Outras não sabem, não querem saber e preferem continuar indiferentes ao racismo que está explícito no ao fato de que há
inúmeras, centenas de bonecas com cabelos preto lisos, loiros, ruivo, e quase nenhuma boneca negra. 
Quando encontramos uma boneca negra, elas são absurdamente caras, e quase sempre não tem cabelo. Quando tem cabelo, os cabelos delas são lisos.  Não se trata apenas de uma boneca. Um brinquedo. E sim de um brinquedo com a criança se identifica.

Nina - Presente do 1º aniversário e  Sofia- Presente de Natal 2015
Em 2015, ela pediu de presente do dia da crianças uma boneca com o cabelo igual ao dela: "você
compa tá mim uma?
" fiz que sim com a cabeça, e você: "Igual o meu, mãe?". Isso me doeu profundamente, pois sabia que seria praticamente impossível cumprir a promessa.  Ela parece ter entendido, e quis que eu confirmasse com palavras: "fala mamãe? Igual meu? ...é mãe? igual meu?". "Sim, filha, igual seu." E de fato não consegui, mesmo vasculhando a internet. 

Uma semana após o dia das crianças, ainda procurava pela boneca que tivesse o cabelo e pele semelhante ao dela, até que encontrei uma boneca negra na internet cabelos cacheados semelhante ao dela, porém, cara demais para nosso orçamento. Então o presente acabou ficando para o natal.
Para o dia das crianças desse ano, tive um pouco mais de facilidade. Encontrei uma boneca negra na internet por um preço relativamente barato.

Hoje, a Sofia tem 17 bonecas, 9 brancas e 8 negras.  Entre as 8 negras, 4 são de tecido todas com cabelo. As 5 de vinil e plástico, 2 são carecas e 3 tem cabelo.  Não a ensino a escolher entre elas, mas fica evidente o quanto ela se identifica com as negras, que aliás são bem mais velhas que as brancas. A Nina é a que ela mais se identifica e tem cuidado e dorme ao lado dela. Tem 3 anos, uma boneca bebê da Coleção Niños da Cotiplas. Sem cabelos prá variar.


Espero que breve possamos encontrar bonecas negras de cabelos cacheados, pretos, coloridos, loiro  e com preços  bem mais acessíveis. Que não seja preciso justificar ao vendedor porque quer comprar uma boneca negra.  Que as milhares de famílias  negras de baixa renda possam presentear suas crianças com bonecas com as quais elas se identificam. 

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