Lugar de mulher e negra é onde ela quiser?

Deroní Mendes - Nesta sexta (21/10/2016), a ONU Mulheres nomeou  a Mulher Maravilha como "embaixadora da ONU para o empoderamento de mulheres e meninas"  cuja missão é "dar visibilidade ao 5º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que busca alcançar a igualdade de gênero e o empoderamento de mulheres e meninas até 2030", coincidentemente, vi da uma postagem  infeliz da pagina Batom Policial,  que além de naturalizar o classifica a nossa luta contra o  racismo e o machismo como: MIMIMI.  

A postagem que segue acompanhada das hastags: #lugardemulheréondeelaquiser  e  #naoaofeminismo , diz: "Coronel Helena, mulher, negra e comandante de mais de 6 mil homens.Com certeza não ficou de mimimi se fazendo de vítima da vida, lamentando ser grupo vulnerável ou minoria!!!"

Pois é, isso mesmo,absurdamente, a pagina classifica racismo e desigualdade de gênero como MIMIMI. Como assim? A Qual realidade, que pais e que sociedade estão se referindo?  Ou  os administradores da pagina são desinformadas ou são machistas racistas.  O Brasil é sim o pais mais desigual para ser mulher, e isso piora muito quando falamos da mulher negra. E cá entre nós, não é preciso  pesquisas para comprovar isso. Basta olhar ao nosso redor. Em qualquer região ou estado do Brasil a desigualdade de gênero e etnia é gritante, infelizmente.

De acordo com pesquisa divulgada em 2015 pelo Fórum Econômico Global, o Brasil ocupa a posição de n° 133 no Índice Global de Desigualdade de Gênero, pior que Angola por exemplo. Outro exemplo, no Brasil os homens representam 63% dos funcionários públicos de alto escalão, diretores e legisladores, contra 37% de participação das mulheres.

A mulher negra no mercado de trabalho brasileiro, além da desigualdade de gênero é vitima também do racismo. Nós, mulheres negras recebemos até 172% menos que a mulher branca de acordo com o Laboratório de Analises Estatísticas Econômicas e Sociais das Relações Raciais (LAESER), da Universidade Federal do rio de Janeiro (UFRJ).

Pelas redes sociais, não é difícil de se perceber que o racismo e o machismo continuam presentes em nossa sociedade. E pior, ganhando cada vez mais adeptos fervorosos.

Porém, como no Brasil, de acordo com a Lei Nº 7.716, de 5 de Janeiro de 1989 e a Lei Nº 9.459, 13 de Maio 1997, praticar ou fazer apologia ao racismo é considerado crime, as páginas no Facebook , por exemplo, observa-se que a linguagem racista é implícita ou camuflada, cujo intuito é desqualificar ou até ridicularizar a luta contra o racismo, com um discurso que usa a meritocracia para naturalizar as consequências gritantes do racismo em nossa sociedade.

De fato, a Helena, mulher negra ocupando o posto de comandante tenente coronel, não deixa de ser uma super conquista. Uma conquista que merece ser compartilhada, principalmente por ela ser mulher e negra. Mas, no entanto, não devemos perder de vista de que, infelizmente ela está entre as exceções que estão aí para confirmar a regra.

A tenente Coronel Helena, mulher e negra, se esforçou muito, e conseguiu chegar ao alto posto de tenente coronel da corporação. Parabéns a ela. É uma vencedora sem dúvida.Ela ter chegado a esse posto, não significa em hipótese alguma,  que as milhares mulheres negras ou não, que não conseguiram alcançar aquilo almejam profissionalmente, estão chorando, lamentando ou de mimimi. Estamos e continuamos lutando. E sim. Somos vitimas do racismo e do machismo. 

Denunciar o racismo e o machismo não é MIMIMI, é lutar por um mundo melhor, com justiça social. Lutar contra as desigualdades sociais, étnicas e de gênero. A tenente coronel ter conseguido, é exatamente a comprovação de que sim, existe o racismo. Quantas mulheres negras, tenentes coronéis e existem na corporação dela? E quantos homens negros ou Brancos ocupam esse posto?

Concordo em gênero, número e grau que #LugarDeMulherÉondeElaQuiser, porém, o racismo e machismo do país em que vivemos podem e atrapalham a chegada ao lugar em que desejamos. Muitas de nós, mesmo cheias de garra, força de vontade, com ou sem mimimi, se quer chegaremos. 

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