Empodere uma menina negra

Deroní Mendes - De acordo com  estudo realizado pela ONG Save The Children em 144 países, o Brasil é o pior país da América do Sul se ser para menina e o 102º do mundo, pior inclusive que a Índia e Angola, por exemplo. Então, já imaginou quão difícil é para uma menina negra crescer e viver em um dos países mais machistas e racista do mundo? Com certeza é muito difícil. 

Eu mulher negra de origem pobre, filha de agricultores, mãe de menina negra, busco empoderar minha filha sobre sua negritude cotidianamente.  Mostro a ela o quanto ela é linda e que sua pele e seus  cabelos são perfeitos. Sim, são diferentes dos cabelos e da pele das amiguinhas da escola, mas ninguém é igual. Digo que todo mundo especial, por isso somos diferentes.

A Sofia, sempre gostou de bonecas, então sempre que possível a presenteio com bonecas negras, ainda que estas sejam bem mais caras e difíceis de se encontrar. Infelizmente, erroneamente algumas pessoas pensam  que eu dou apenas bonecas negras a ela. E então já fui questionada algumas vezes, se não tenho receio de que ela se transforme em uma pessoa racista. 
É claro que esse questionamento sempre me incomodam prá caramba. Mas, sei também, que muitas vezes o individuo que me faz essa pergunta, infelizmente, não tem a real noção sobre o que seja ser negro e viver em uma sociedade racista o racismo, ou mesmo a atitude racista. E por um mundo menos racista, sinto que é minha contribuição social, ajudá-la a entender a crueldade e as marcas que o racismo deixa em nós. 

Hora de exercitar a empatia. Preciso ser empática,  ainda que a educação de minha filha diga respeito a mim e ao meu esposo. Então, sem agressividade ou levantar o tom da voz,  e de preferência com um sorriso, explico que, dou a ela preferencialmente bonecas negras, porque é importante para a auto –estima dela. Quero que ela tenha referencia. 

Referência é algo extremamente importante para o desenvolvimento intelectual  e profissional de qualquer pessoa. E  em uma sociedade como a nossa, onde negros e sua cultura são sempre mostrados em situação de inferioridade, ela precisa aprender que não há nada de errado com a cor da pele, e o cabelo dela.   

Presenteá-la com bonecas negras, de  maneira alguma, significa que a ensino a odiar pessoas não negras, ou bonecas não negras. Até por que ela  também tem bonecas não negras, amigas não negras, o pai dela não é negro e tão pouco sua família é negra.

 De toda forma, faço questão de ressaltar, que preferencialmente, é muito diferente de exclusivamente, e que racismo, vai muito além, de não gostar da cor da pele e do tipo do cabelo. Ela ama as bonecas brancas tanto quanto as negras. E sempre relaciona/compara com pessoas do cotidiano: A professoras, as coleguinhas, as primas, ela e eu. E faz isso, a partir do cabelo e da pele das bonecas. Faz muita diferença ela pode encontrar semelhança entre ela e algumas bonecas.  

Infelizmente, poucos relaciona a exclusão social, política e econômica da população negra ao o racismo. Porque, sim racismo é quando a cor da pele e o tipo do cabelo servem como motivação para a ridicularização, inferiorização e ou exclusão social, política, econômica e cultural de um grupo étnico.  

Nossas crianças, e principalmente nossas meninas precisam de auto estima, informação, empatia, referência. Enfim, empoderamento. O empoderamento da mulher negra precisa iniciar cedo, ainda na infância. Desde de menina. 

Share:

0 comentários