Vende-se

Foto: Deroní Mendes: Sítio do meu pai em Vila Bela- MT
Deroní Mendes - “Boa noiteTenho uma fazenda  de 435 alqueres  (957 hectares) a venda a 45 km da cidade de Pontes e Lacerda sentido Matao toda cercada com 2 casa de madeira ,1 barracão , curral,11 represesas feita na pc   , + - 240 alqueres (528 hectares) formado com humidicula o resto é pastagem natural.


Preço para negociação: R$ 2.400.000,00  se quiser maior, o meu visinho tambem vende 525 alqueres (1.144 hectares) so falar comigo que eu faço o levantamento do preço que ele esta pedindo e do das benfeiturias que ela tem. fone 65-9222-XXXX ou 65-3266 XXXX falar com XXXXX. se interessar me liga que a gente marca para conversar.

Outro dia por engano recebi o e-mail acima sobre a venda de duas fazendas no município de Pontes e Lacerda região sudoeste de Mato Grosso, fronteira com a Bolívia.

Eu acabava vencer uma longa batalha burocrática para resolver um problema relacionado ao sítio do meu pai há exatos 11 anos. Além de estar angustiada acompanhando as questões relacionada a possibilidade inconstitucional e vergonhosa de remoção dos indígenas Xavantes da Terra Indígena Marãiwatsédé para o Parque Estadual do Araguaia.

O e-mail me fez pensar sobre o significado e importância de uma terra, um território para os diferentes grupos sociais como povos e indígenas e comunidades tradicionais e para fazendeiros e posseiros, grileiros, etc.

Nunca é demais refletir e repetir que para povos indígenas e comunidades tradicionais desenvolvem uma identidade com o território onde habitam e não estão dispostos e vender seus territórios por dinheiro algum por que a terra onde vivem é tão importante quanto a vida dos indivíduos do grupo ou do próprio grupo melhor dizendo. É o uso que fazem do lugar que os fazem ser quem são. A cultura desses grupos está intimamente ligada ao uso que fazem dos recursos naturais e os diferentes lugares e elementos que compõem o território. Para os povos e comunidades tradicionais o território onde vivem a várias gerações não tem preço.

No final de 2000 fomos surpreendidos com uma cobrança retroativa referente ao Imposto Territorial Rural – ITR referente ao sítio do meu pai. Ficamos desesperados porque não tínhamos o dinheiro prá pagar tal valor (quase 10 mil reais) em tão curto tempo e também porque entendíamos que a cobrança era indevida uma vez que meu pai tinha apenas um lote de terra e a cobrança referia a dois lotes.

Fomos diversas vezes ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA em Vila Bela, em Pontes e Lacerda, em Cáceres e na Receita com toda documentação que meu pai tinha sobre a terra e nada.

O tempo se esgotava e nossas esperanças também. A terra iria a Leilão. Sem conseguir ver outra saída, chegamos a propor ao meu pai que desistisse de lutar e deixasse a terra ir a Leilão já que estava complicado resolver; Não tínhamos dinheiro para pagar a dívida; Não havia mais prazo para parcelá-la;

Já há alguns anos, apena meu pai, minha mãe e meu irmão mais velho moravam lá; O lugar é distante da cidade desprovida de estrada, o que os deixava isolados na época das chuvas (dezembro a maio).

Ponderamos com eles que dentro de alguns anos, poderíamos ajudá-lo a comprar uma terrinha menor, porém mais próxima a cidade, mais infra-estrutura e até poderíamos visitá-los com mais freqüência e enquanto isso eles ainda ficariam morando na cidade, pertinho junto de nós. Chegamos a acreditar que aquela poderia ser uma boa idéia. Aliás, a única saída também.

Foto/montagem: Deroní Mendes:Sítio do meu pai em Vila Bela  - MT:
A placa  nesta e na primeira foto são  fictícias. São apenas montagens (grosseiras)
 minhas meu pai jamais aceitaria vendê-lo.
Lembro-me como se fosse hoje, que o meu pai quase chorou. Ficou muito nervoso e decepcionado, creio. Acho que ele não esperava tamanha falta de consideração e desrespeito por parte dos filhos. Penso que foi a pior saída que poderíamos encontrar. Acho que papai e mãe morreriam longe daquele lugar. Eles só conseguem ser feliz lá. Eles só se sentem importantes, lá. Eles sabem a dinâmica de tudo, dos bichos, dos insetos, dos peixes, das plantas e até quando será um ano de “fartura”, de muita ou pouca chuva. Quando fará frio. Qual o lugar do rio é melhor prá pescar determinado tipo de peixe.

Meu pai cresceu, casou-se e nos viu nascer, crescer e sair de lá prá estudar fora, viu seu pai e sua mãe morrer e serem enterrados lá. Tudo que ele era estava ligado aquele lugar a identidade dele tinha a ver com aquele lugar.  Diferentemente, nós, os filh@s que saímos muito jovens de lá, e ainda que tenhamos tido uma infância feliz lá, no meu caso, passei a maior parte da vida até aquele momento na cidade.

O que para nós era apenas um lugar para se recordar da infância feliz e onde moram nossos pais, para ele e minha mãe é o lugar para viver. O lugar que viveram, vivem  que querem ficar até o fim. E não existe melhor lugar do que aquele. Sim, é longe, com pouca infra- estrutura, mas ainda assim, para eles, é o melhor.

Recuamos da proposta porque papai e mãe nos fez entender quão importante era e é o sítio circunvizinhança que se transforma com eles ao longo dos anos. Toda a história de vida deles está intimamente e diretamente ligada a história e transformações sociais, ambientais e até econômicas que ocorreram por lá.

São diversos os problemas enfrentados agrários enfrentados por agricultores familiares, comunidades tradicionais e povos indígenas. O Estado precisa e tem o dever de promover políticas públicas que assegurem vida digna a estes povos dentro dos seus territórios e não apenas projetos e programas pontuais de apoio a estes grupos. A política Nacional de Povos e Comunidades e a Política Nacional De Gestão Ambiental Em Terras Indígenas – PNGATI ainda são apenas um sonho.

Em contrapartida a sociedade civil precisa entender, aceitar e respeitar que para eles dinheiro nenhum é suficiente para comprar o território onde viveram seus ancestrais; onde construíram suas vidas e a identidade coletiva do grupo.
Não se trata de tamanho, localização ou do valor comercial, ou quão inóspito pode parecer o lugar aos olhos dos outros. Por tudo que viveram ali. Estes sempre serão sempre o melhor lugar do mundo. Sem valor comercial.

Foto: Deroní Mendes: Mulheres do  Quilombolas da 
comunidade Acorebela em Vila Bela quebrando coco de babaçu
As transformações  que estes povos e comunidade fizeram, fazem e farão ou provocam  no lugar ainda que não tão sustentáveis algumas vezes motivadas mais pela sobrevivência da família e do grupo do que pelo retorno financeiro que a ação vai proporcionar ao grupo ou individuo.

É preciso entender que estes povos estão dispostos a fazer o impossível para permanecer em seus territórios e que neles continue sendo possível a sobrevivência lá esta e para as futuras gerações. Esperam que seus filhos e netos se interessem em permanecer ou voltar a viver lá.

Irão lutar com todas as forças para que empreendimentos econômicos como monoculturas de grãos abertura de pastagens, uso indiscriminado de agrotóxicos, abertura e construção de estradas hidrovias, ferrovias, hidrelétricas não destruam o espaço e seus recursos imprescindíveis a sobrevivência e que conseqüentemente as  mudanças climáticas, não sejam tão severas a ponto de expulsá-los e transformá-los em refugiados do clima em futuro breve.

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