O desenvolvimento (in)sustentável que temos e queremos

* Deroní MendesA necessidade de uma forma de desenvolvimento sustentável parte do pressuposto de que o atual modelo de desenvolvimento do capitalismo globalizado é insustentável porque resultou em uma sociedade injusta tanto do ponto de vista social econômico e principalmente ambiental que aumenta cada vez mais as desigualdades sociais.

Tanto em escala mundial quanto em escala regional e local o que se tem evidenciado é a concentração de renda e o aumento das agressões a natureza com o objetivo de produzir cada vez mais em menor espaço de tempo.

A noção de desenvolvimento sustentável vem contrapor esse modelo de desenvolvimento supracitado e nesse sentido entende-se que para o modelo de desenvolvimento atual torne-se sustentável de fato é preciso que se elabore e execute programas e políticas públicas capazes aliar “eficiência econômica, eqüidade social e prudência ecológica”.

A implementação de políticas públicas ou programas capazes de promover a sustentabilidade social, econômica e ambiental pressupõe investimentos em ações que promovam a estabilidade financeira de cada nação. Implica na incorporação de ações permanentes voltadas para a promoção da igualdade social, geração de e aumento de renda para a população pobre. Valoriza e respeita a diversidade sociocultural de cada região, o saber local e principalmente, promove ações que priorizam o uso racional dos recursos naturais, isto é forma de usufruto que não coloque em risco a dinâmica dos ecossistemas.

Tais ações precisam ser executadas localmente, no entanto seus resultados refletirão globalmente porque criarão uma série de mecanismos capazes reduzir os impactos ambientais, as desigualdades sociais e econômicas simultaneamente. Além disso, tornará possível garantir o protagonismo das populações locais com seus saberes, crenças, práticas e valores.

Para que a Amazônia e o Brasil se desenvolvam sustentavelmente é preciso que se leve em conta as características socioambientais de cada região. No caso da Amazônia, há que se considerar que esta, seu povo e sua cultura até pouco tempo sempre havia sido considerada como atrasada dentro dos planos e projetos políticos elaborados pelo Estado. Assim, as ações eram pensadas e ELABORADAS PARA OS POVOS DA AMAZÔNIA e não COM O POVO DA AMAZÔNIA. Parece pouco, mas há uma grande diferença entre fazer algo com e fazer algo para. Sei que entendem.

No caso da Amazônia, não se pode perder de vista que o fato de que o extrativismo é uma das mais importantes atividades econômica, social e ambiental que permite não só a sobrevivência das populações locais e dos povos indígenas como também o principal responsável pelo equilíbrio ecológico do ecossistema nos quais estão inseridos. Ou seja, estas populações e seu modo de vida tido como atrasado são as principais responsáveis pela manutenção das florestas em pé.

Atualmente, percebe-se que há um “considerável” esforço por parte de alguns governos estaduais e principalmente do governo Federal através dos Ministérios do desenvolvimento Agrário – MDA, Ministério do Desenvolvimento social – MDS e principalmente do Ministério do Meio Ambiente – MMA em apoiar e fortalecer experiências interessantes e exitosas praticadas ou desenvolvidas junto e/ou pelas comunidades Brasil a fora pelas comunidades locais e parceiros ( principalmente ONGs e universidades) que conciliam o uso da biodiversidade local e práticas econômicas sustentáveis.

Tudo isso ainda é pouco, diante da grandiosidade que estas comunidades e seu modo de vida representam para a sustentabilidade do planeta. Tais experiências devem merecem serem financiadas, apoiadas, replicadas, reaplicadas, divulgadas, incentivadas, valorizadas, etc, mundo a fora.  Essas populações dependem dos meio onde se encontram inseridos e desenvolveram modelos de vida que podem ser considerados aliados na construção de uma nova relação sustentável entre o homem e a natureza.

De qualquer forma já é um começo. Tardiamente é verdade. Estamos caminhando a passos bem lentos, mas quem sabe brevemente os “catadores de coquinhos” como já foram chamados os extrativistas por um certo ex-governante, algum dia eles serão prioridade na elaboração de políticas públicas. Serão ouvidos, e em fim suas práticas, anseios e planos de vida, serão considerados e incorporados como prioritários para todo e qualquer gestor público.

Para um país, uma região, um estado ou um município, desenvolver-se de forma sustentável as políticas públicas precisam garantir o protagonismo das populações locais valorizando a diversidade social, cultural dos diferentes povos e a partir daí elaborar estratégias que incorporem estes grupos que ao longo da história vem perdendo território e principalmente o acesso aos recursos naturais essenciais à subsistência familiar Sustentabilidade significa aliar desenvolvimento econômico, social e ambiental.
Triste  perceber que muitos acreditam ser possível construir um mundo sustentável com ilhas de riqueza cercadas de pobreza por todos os lados. Parece tão idiota. Você não concorda?


*Deroní Mendes é Geógrafa e coordenadora do projeto de Formação de Gestores Indígenas no Instituto Indígena Maiwu de Estudos e Pesquisas de MT.

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