Dona Benedita

Dona Benedita e Érick, seu neto.
* Deroní Mendes
 Apresento-lhes Dona Benedita, minha mãe e minha amiga. Sem dúvida uma das pessoas mais especiais que conheço. Sou suspeita prá falar sobre ela, mesmo assim, me atrevo a falar.
  Nunca seria capaz de escrever algo altura do que ela merece “ainda que eu falasse e entendesse todas a línguas dos homens e dos anjos” ou que tivesse a sabedoria dos sábios e a inteligência dos filósofos não daria conta.
Seria impossível. Dona Benedita é tudo prá mim. Ela não perfeita, mas é única e especial. A mais especial e importante de todas as mulheres. Daria minha vida por ela.

Filha única, dona Benedita perdeu sua mãe quando ainda eram um bebê de apenas 1 ano e meio. A lembrança que ela traz da mãe, minha avó, Dona Paula Fernandes Leite, são apenas as histórias contadas pelos parentes.

Órfã de mãe, ela fora rejeitada pelo suposto pai, dona Benedita fora criada por parentes, tios e tias cuidando dos prim@s ou sendo empregada de famílias para ter onde morar.

Estudou até a quarta série do ensino fundamental, casou-se nova aos 17 anos com seu Germano (meu pai) mudou-se para zona rural. Teve 11 filhos, 09 meninas e 02 meninos. Todos de parto natural. Estamos todos vivos, agradecidos e orgulhosos dos seus ensinamentos, garra e dedicação.

Quando criança no sítio, muitas vezes não a entendia. Achava-a muito dura conosco muito rígida “trazia a gente na rédea curta”. Estava sempre nos prometendo “uma surra daquelas” com chibata ou então com galhos de tamarindo.

Para os padrões de mãe dos dias atuais, muitos podem dizer que Dona Benedita errou com a nossa educação. Mas eu digo que com toda certeza ela acertou sempre, ela e seu Germano se erraram foi tentando acertar. Só queriam o melhor prá nós. Só queriam nos ensinar a viver nesse mundo egoísta e selvagem.

Dia 08 (de maio) foi o dia das Mães e no dia 10 foi o aniversário de dona Benedita, 67 anos, aproveito este post para dizer a ela (e a seu Germano) que seus ensinamentos, trago e com certeza levarei prá sempre, são exemplos e princípios de vida que estão e continuarão gravados e guardados na cabeção e no meu coração. Há um provérbio bíblico que conheci por acaso lendo a bíblia e ele diz "Ensina a criança o caminho que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele." (Provérbios 22: 6). Dona Benedita, em alguns momentos posso até fazer algumas curvas, mas jamais vou desviar do caminho que a senhora e seu germano me ensinaram.

Quando criança, dona Benedita e seu Germano não nos deu tudo que desejávamos, mas nos deu tudo que necessitávamos.

Dona Benedita jamais tolerou qualquer palavrão ou briga entre os filhos e também jamais achou graça quando o filho de alguém disse palavrões.

Sim, ela nos deu orientação espiritual quando criança. Mas também nos deixou claro que quando adultos cada um poderia escolher sua religião e o mais importante, ela aceita que eu seja uma pessoa sem religião.

Dona Benedita não permitia que deixássemos jogados: livros, sapatos, meias, brinquedos ou qualquer outra coisa. Fazia com que colocássemos tudo em seu devido lugar para que aprendessemos desde cedo a termos responsabilidade com o tínhamos e fazíamos. Nas surras, ela sempre nos disse o que fizemos errado. Ela sabia que isso não nos nos faria mau algum. Pelo contrário nos faria refletir e não mais repetir os erros.

Dona Benedita e seu Germano não nos deu tudo em comida, bebida, liberdade e conforto quanto nossos corações de filhos desejávamos. Eles leram, sim, em nossos olhos cada desejo. Mas sabiam que tudo aquilo era descessário ao nosso crescimento como pessoas simples e dignas.

Seu Germano, eu e Dona Benedita
Dona Benedita e seu Germano jamais discutiram em nossa frente quando crianças. Eles também não nos defendia sempre contra os vizinhos, professores e a polícia achando que todos tinham algo contra nós. Eles sempre nos ensinaram a importancia de respeitar para sermos respeitados e também a mantermos sempre em alerta para vivermos em paz e não sermos feitos de otário pelos inúmeros espertos e sem escrúpulos que há por aí. E acho que aprendemos.

Há um versículo em Provérbio que diz: "Corrige o teu filho, e te dará descanso, dará delícias à tua alma." (Provérbios 29:17). Então hoje entendo dona Benedita e suas preocupações com a nossa educação. Tantas surras, tanto castigo. Tenho certeza que ela só queria ter uma velhice em paz com seu Germano como a que tem hoje.

Ela não diz isso com estas palavras, mas sempre (e é sempre mesmo) que pergunto porque depois que crescemos “ela virou outra pessoa”. Porque hoje dona Benedita é alto astral, sorrisos e brincadeiras. Está sempre de bom humor e disposta. Ela diz que não tem mais com o quem se preocupar. Que os filhos estão todos crescidos e “encaminhados” então agora ela tá só aproveitando a vida e a companhia e amor do seu Germano e sempre que possível da companhia dos filh@s, genros, noras e net@s. Sábia dona Benedita.


*Deroní Mendes é filha de Dona Benedita e seu Germano, Geógrafa e coordenadora do projeto de Formação de Gestores Indígenas no Instituto Indígena Maiwu de Estudos e Pesquisas de MT.

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