A configuração sociocultural do espaço agrário do Brasil

 Deroní Mendes - Para entender e analisar o espaço rural brasileiro e a dinâmica sócio-cultural dos grupos que viveram ou vivem o sistema comunal faz-se necessário uma reflexão sobre a formação do próprio espaço geográfico brasileiro, desde o período colonial até os dias atuais.

A formação sócio-espacial do espaço geográfico brasileiro não se deu de forma homogênea, ou seja, sua atual configuração sócio-espacial é resultado da influência de diferentes culturas que ao longo do tempo ao se integraram e também se modificaram dialeticamente resultando em espaços semelhantes, porém cada um com suas especificidades.
Trata-se de ocupações específicas, que embora inseridas no mesmo contexto global possuem uma configuração sócio econômica e cultural própria de cada local.

Cada sociedade possui suas próprias normas que orientam as relações entre os membros dos grupos e destes com o exterior e a natureza. Apesar de suas especificidades estas sociedades não estão isoladas umas das outras, elas fazem parte de um sistema global.

Na década de 1970 Milton Santos já afirmava que as transformações sociais e econômicas devem ser encaradas como um processo dinâmico resultante da relação estabelecida ao longo do tempo entre o homem e a natureza. Esta relação pode ter resultados positivos ou negativos. Tais alterações em alguns casos acontecem gradativamente, permitindo aos indivíduos uma melhor adaptação à nova realidade.

Com exceção dos povos indígenas que já habitavam território brasileiro milhares de anos antes do descobrimento, a história e geografia agrária mostra que as primeiras localidades hoje denominadas comunidades tradicionais ou populações locais datam do período colonial principalmente aquelas que fizeram o uso comum da terra e demais recursos naturais. No entanto, no decorrer do tempo tais grupos foram perdendo seus territórios para grileiros, fazendeiros, empresas multinacionais e empreendimentos governamentais devido a grandes migrações incentivados por programas governamentais e em muitos casos porque muitos os indivíduos das comunidades tradicionais não possuírem o titulo formal de propriedade da terra em que ocupam.

São camponeses que ao longo do tempo estabeleceram uma organização sócio-espacial particular, baseada em laços de parentescos, solidariedade a ajuda mútua e principalmente no usufruto comum terra e outros recursos naturais vegetais e animal da região onde habitam.

No entanto, em muitos casos, tais grupos ou indivíduos foram considerados pelo INCRA no processo de regularização fundiária simplesmente como posseiros e portanto, ilegais . Sendo assim, depois de décadas ou até século de vivência comunitária, foram despejadas judicialmente ou expulsas por pressão de fazendeiros ou grileiros sendo obrigados a juntar-se à imensa população brasileira “sem terra” vivendo a margem da sociedade em áreas periféricas da zona urbanos ou acampados na zona rurais.

O que se percebe é que tais povos além de serem marginalizados socialmente fora dos seus territórios ancestrais, ao longo do tempo perdem também a identidade cultural. Rituais singulares ligados a crença, a forma de produzir e relacionar-se entre si e com a natureza. Ou seja a perda do território, acaba interferindo na manutenção e valorização da identidade cultural da comunidades tradicionais Brasil e mundo a fora.

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