Um papo sobre COMUNIDADES TRADICIONAIS

Quem acompanha esse blog e me conhece, sabe da minha origem rural. Isso mesmo SOU DA ROÇA. E no sentido literal da expressão, fui criada na zona rural. Sai de lá cedo muito penso, eu, aos 10 anos. Voltar apenas nas férias de fim ano não ajudou muito a entender a dinâmica daquele espaço. Era pouco tempo prá brincar, (re) visitar e explorar antigos e novos lugares.


Como trabalho de conclusão de curso fiz uma pesquisa que teve como objetivo dissertar sobre as transformações na dinâmica sócio-espacial das populações que praticaram o uso comum da terra e dos demais recursos naturais tendo como objeto de estudo os moradores da antiga sesmaria Taquaral (atual Comunidade Nossa Senhora do Carmo) em especial o grupo que hoje residem na Comunidade Nossa Senhora da Guia localizada na Província Serrana de Mato Grosso a leste do perímetro urbano do município de Cáceres as margens da MT-343 que liga este ao município de Porto Estrela-MT.

Essas duas comunidades são formadas por agricultores familiares que ao longo do tempo construíram sua identidade territorial sobre a terra, cuja identidade cultural revela a importância da terra e outros recursos naturais para os mesmos.

Não sou da região em questão (grande Cáceres). Sou do Vale do Guaporé, e conheci essas comunidades acompanhando uma grande amiga e pesquisadora Maria Virginia Almeida Aguiar em sua pesquisa de Dourado sobre os Usos da biodiversidade por comunidades tradicionais.

Acompanhá-la no dia a dia, nas entrevistas com os antigos das comunidades, idas as roças, quintais, lugares, etc... despertou –me o interesse em fazer essa pesquisa foi exatamente o fato dela lembrar muito o espaço em que fui criada: o modo de produzir, organizar, as crenças sobre a natureza.

Em fim, de certa forma me senti em casa. De volta ao começo. Só que dessa vez com maturidade prá entender e refletir sobre tudo isso. Muita coisa que antes não entendia na minha infância estavam ali, prontas para serem respondidas e outras para serem descobertas.

Sempre gostei de ler sobre questões agrárias. Geografia agrária, então. Nem preciso dizer que foi minha disciplina favorita. Mas também gostei muito de antropologia, Ciência, Sociedade Natureza e geopolítica.

Mesmo sem entender muito sobre questão agrária, me atrevi a escrever sobre. Incentivos não faltaram. Professores, colegas de sala e de trabalho. Nossa não foram poucos, graças a Deus. Isso me assustou um pouco, porque colocavam muita expectativa nessa pesquisa. Mas devo admitir que foi também um imenso incentivo, porque saber que pessoas acreditam no seu potencial aumenta nossa auto confiança. È uma grande responsabilidade, mas o suficiente para seguirmos em frente. É muito bom. Vocês sabem do que estou falando.

A década de 1960 serviu como marco inicial para esse estudo, pois desencadeou uma série de transformação na dinâmica sócio-espacial da comunidade segundo relatos dos moradores, porque a partir da elaboração e promulgação do Estatuto da Terra em 1964, onde o Governo Federal através do Instituto Brasileiro de Reforma Agrária (IBRA) obrigou-os a fazer o uso parcelado da terra ao dividi-la em lotes.

A pesquisa demonstrou que o uso parcelado das terras trouxe profundas mudanças, desestruturando a identidade territorial do grupo, anteriormente baseadas em normas específicas resultantes dos laços de parentesco, solidariedade e ajuda-mútua estabelecido entre os membros do com os demais e com a natureza. O reduzido tamanho dos lotes levou ao declínio da produção e posteriormente a venda dos mesmos aumentando a presença de indivíduos “de fora” na comunidade.

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2 comentários

  1. Que bom ver seu blog atualizado, minha menina. Ainda mais escrevendo sobre comunidades tradicionais. Estou aprendendo muito com você sobre este tema, sabia? Gosto muito de conversar com você sobre, ler no seu blog e também as aulas práticas que vc tanto já me deu...
    Te amooo

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  2. Culpa sua que atualizei-o. Obrigada pelo incentivo, viu?

    Sobre o os povos e comunidades tradicionais, definitivamente é um assunto que gosto muito, afinal sou de uma, né.

    Gosto muito de conversar com vc sobre as particularidades do meu povo. Dos nossos costumes, nossas brincadeiras. Te mostrar os lugares onde os fatos ocorreram, então. Nem se fala.


    Gosto de compartilhar tudo com vc, inclusive isso... tá sendo uma experiência maravilhosa, e é ótimo saber que vc está gostando.

    Também te amuu, mto, viu.

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